Poesia que engorda a dor

Nem toda a leitura ou escrita é aconselhável a um depressivo. Penso em Florbela Espanca e as suas palavras só podem deprimir. Nem gosto de as ler quanto mais se as escrevesse. Alguém para dizer aquilo tem que estar a puxar o sofrimento do fundo da alma e a dor alimentada engorda. Há coisas que se dizem e fazem que nos prejudicam. É preciso ter muitíssimo cuidado, especialmente, com alguma poesia.

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Endireitar a cepa

Cepa torta, isto da cepa torta tem que se lhe diga. Por exemplo, «Ouve lá, endireita-te! Faz assim…».  Mas dizer isto ou declamar o Quasi do Mário de Sá-Carneiro não endireita a cepa. Não vai lá com exemplos. Só vai com a persistência da cepa, com o desejo inquebrantável de se virar para o céu e vai com a sorte.

Empregos escravizantes

Um autor que muito aprecio, Paulo Coelho, diz que «só o amor ao que fazemos transforma a escravidão em liberdade». Isto é verdade, quem é que aprecia ser escravo, excluindo em certos fetiches sexuais, ninguém. Não é então natural o sonho de se libertar de um emprego que escraviza? Duvido que alguém, com um coração dentro de padrões humanistas, negue. Agora se é viável, tem que ser ponderado e bem. Caso contrário, é mudar para um emprego onde o vento já cheire a liberdade. Agora, acomodar-se é ser escravo sem estrebuchar.

Que livros aconselhar

Depende do perfil da pessoa, da idade. Mas eu aconselharia a mim, por exemplo, os três livros que mais amei na minha vida ler.

São eles:

– «Os Versos do Capitão», de Pablo Neruda (na tradução de Albano Martins)

– «O Alquimista», de Paulo Coelho

– E toda a colecção de «Os Cinco», de Enid Blyton (E já agora, a colecção «Uma Aventura» de Isabel Alçada e Ana Maria Magalhães)

Precisa-se literatura contra os pés de galinha

Há muito que se sabe dos efeitos benéficos do exercício físico para a saúde, mas grande parte de nós só o pratica para embelezar as curvas do corpo. Assim sendo, só quando aparecer uma literatura que seja eficaz contra os pés de galinha pode haver um acréscimo de leitores.

Por enquanto, a ignorância do mundo também é patente na maldade para com os livros e autores. Faz-se mal quando não se demonstra carinho.

Do livro de memórias de Bennett Cerf

Maria do Rosário Pedreira no seu blog «Horas Extraordinárias» contou hoje a seguinte história, que Leu no suplemento «Babelia» do El País, sobre uma recensão a um livro de memórias de Bennett Cerf publicado agora em Espanha:

Cerf contratou um jovem editor muito competente para trabalhar a parte final de um dos romances de Faulkner e este ficou incrivelmente satisfeito com o trabalho realizado. Mas, quando Cerf lhe perguntou se o dissera ao jovem, Faulkner respondeu apenas: «Quando tenho um cavalo que está a correr bem, não o detenho para lhe dar mais açúcar…»

De facto, o intento lá terá o seu sentido.

Como tudo o que importa, depende de sorte e da presença de vazios a continuidade do sucesso. Vazios que se descobrem e se preenchem. Já a sorte é muita conjectura feliz e puro mistério, logo insondável. Depois há essa necessidade de frear palavras de agrado, como se perigosas, como açúcar ofertado ao diabético.

Que ensinamento atirou este grande escritor (e caçador) que, conhecendo o poder insondável da presença da palavra e do vazio, opta pelo silêncio para que a sorte continue a atingir o jovem editor.