Vi o carro e a doçura do seu movimento era leve como a esperança. Engoli a saliva e refiz o olhar. O carro já curvou. Fiquei sem saliva na boca e sem o carro na esperança. Todavia o olhar está presente, refeito. Vi então o mar olhar a água da minha garrafa, escondi-a dele, voltei-me e bebi a água sem o olhar dele. A água é minha paguei-a, pertence-me. Depois avancei um passo ou dois, com certeza que não foram três, porque salto sempre ao terceiro, manias. Depois desse primeiro ou segundo passo, escarrei a saliva em excesso que como uma maré viva inundou-me a língua a dentição e a vontade de saltar. O mar troçou do meu escarro, vejo-o recuar e depois expelir um escarro gigante que salpicou de saliva salgada os veraneantes. Sinto-me pequeno junto ao mar, ínfimo. Detesto-o por escarrar bem melhor do que eu. Viro costas e salto de novo para o meio da estrada, persigo o carro de movimentos sensuais, doces. Detesto salgados, mas um qualquer pastel me tira do sério. Onde o carro curvou não o encontro, no seu lugar estão gestos e palavras obscenas de condutores de carros salgados, escarro-lhes os vidros, eles não notam que o faço, sinto-me inútil. Somente o facto de existir e de essa materialização poder caminhar pelo meio da estrada, dá interesse às minhas horas, sinto-me importante, quando caminho dessa forma. Sinto que não sou um sonho. A minha vida é importante para quem conduz e isso é uma realidade indiscutível a  todos aqueles que julgam que ninguém repara neles.    

Todavia aquele carro doce, sensual, desprezou-me. Nem um olhar, um piropo. Sigo no seu encalço, salto para o passeio porque a minha vida ganhou um propósito, um valor acrescentado que é preciso preservar.

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