Sorrindo, o indivíduo debruçou-se, lambeu os dedos e cuspiu. À frente o muro cortava a visão do que será prometido. Ao levantar-se, olhou o céu e raspou a lama com os sapatos envernizados. Depois gritou com alma e terror. Agora.

Ao fim do muro, uma oliveira, no princípio do ramo uma candeia apagada iluminou-se com um raio de sol. Com a mão, o homem afastou o raio de sol e rápido devolveu-o à candeia. Suspirou e colocou-se a modo de saltar o muro.

Saltou-o. Caía agora por um precipício, e, nesses instantes, sentiu o mundo. Finalmente, os pés tocaram o chão e de novo sentiu-se desprezível, um infeliz ser humano. Deus. Procurou um rumo do outro lado do muro e, sem para trás olhar, reparava que o rumo estava nos seus passos, a cada passada que instruía.

Deste lado do muro, uma caverna surgia ao longe e ele imaginou-se um lobo. Ao chegar, deitou-se na caverna e adormeceu. Teve sonhos agitados e o sexo expulsou o sémen que os testículos produziam em excesso. Não desfrutava das fêmeas. Acordou com os dentes à vista, e um gemido que se tornou consciente.

Olhou a caverna e com uma pedra desenhou um animal nas paredes duradoiras. Subiu um monte e continuou a subir montes. Esqueceu-se do passado. Prometeu não visitar o futuro. Nos seus pensamentos passados o futuro era pensado. Agora detesta esses pensamentos temporais. Descobriu que apenas uma obrigação tem – viver sem o futuro que se pensa nem o passado que se viveu. Olhava o céu e deixou-se cair por terra, estendeu-se ao comprido. Os sapatos de verniz chutavam as folhas que ainda no ar caiam pelo chão, caindo como ele caíra (a sua vida?). Cuspiu na vertical, a saliva caiu sobre ele como uma folha de Outono.

O Outono esculpia estranhas paisagens e ele chorou. Com as lágrimas encheu a boca e cuspiu para o ar, começara a chover. Ergue-se e retomou o caminho sem passado e sem futuro. Depois correu, uma corrida que o deixou a arfar, com os braços caídos sobre os joelhos.

O passado queria voltar, não deixou e inspirou o ar húmido. Sorriu e os seus passos agora contornavam as poças. Saltava as poças. Até que decidiu despejar os sapatos de verniz no centro da possa maior. Fechou os olhos, a água entrou-lhe nos sapatos, os pés começaram a sentir o frio aguado. Inspirou e chorou. Expirou e chorou.

A poça ficara lá atrás, e ele, um pouco à frente, trazia os pés molhados e os sapatos sujos. Correu em direcção a uma árvore, saltou e agarrou-se a um ramo. Em baixo uma poça de água e ele pendurado observava-a, deixou-se cair atracando a água da poça. Ali ficou um tempo estudando o tempo. Saltou e agarrou de novo o tronco, fez uma elevação de braços e ergueu-se em pé, com os sapatos endireitando-o no tronco. Olhou em redor e saltou para a poça que, desta vez, despejou a água toda. Lembrou os testículos, o pénis que ejaculava o excedente. Masturbou-se para confirmar. Confirmava-se. Lavou as mãos junto dos sapatos que agora brilhavam mais. E avançou no terreno.

Ao fundo, um muro com uma cidade grafitada. Cidade real? Estava longe e não tinha como confirmar. Sentou-se ao lado de um javali, adormeceu roncando como o porco. Ao acordar, o javali tentava penetrá-lo. Ele acariciou-o e mostrou-lhe o sexo. O javali afastou-se ejaculando triste. Comeu bolotas e cuspiu como se expelindo. Sorriu e arrastou-se no terreno. Caminhava como os porcos, fossava as ervas e grunhia gritos fétidos, infernais. Alcançou um ribeiro e urinou nele, lavou o sexo e o ânus, depois bebeu a água, vomitou. Limpou a água da urina e dos resquícios de fezes. Saudou a água e abalou.

Uma Cidade. Gargalhou.
O ar ainda estava limpo como um ribeiro livre de dejectos. Perfumou as narinas com uma pétala que pairava, lambeu-a, mastigou-a, engoliu-a, arrotou, cuspiu e sorrio. A cidade, a ela.

A cidade fumegava, ao longe parecia que uma manta de poluição a agasalhava do astro. O homem alcançou a cidadela, o condado do reino da indústria e cultura. Cuspiu. Esfregou as mãos para as aquecer e tornou a andar, as mãos quentes procuravam aquecer o ar, caminhava de mãos ao alto.

Fora apanhado pela modernidade, e não tinha como fugir, avançou. A cidade fraquinha ali iniciava, casa aqui, prédio além. Periferia salteada de alcatrão e barracas de chapa e madeiras pregadas. Meninos pobres calçavam ténis de marca e fumavam cigarros caros. Os velhos bebiam boas bebidas e as mulheres abanavam as ancas satisfeitas do muito sexo, vibrantes de energia feminina. Os homens, esses, pela tarde ainda dormiam ou aqui e acolá bebericavam cervejas ou entornavam o corpo pelas esplanadas soalheiras e populosas.
Entrou, por fim, na cidade. Andava-se de bicicleta. As adolescentes carregavam leitores de ebooks, debaixo dos sovacos, com a mesma graciosidade que as suas antepassadas transportavam a cesta da roupa. Bonitas, e o pénis ergueu-se, mexeu-se nos boxers. Desviou a atenção para dois homens que se esfregavam a um canto, cuspiu e foi cumprimentá-los. Esfregaram-se todos e embora foram, o sexo encolhido repousava agora. As mulheres não sabem engolir como um homem.

Ao lado de um banco, pobres pediam. Eram aqueles que lá esconderam as suas poupanças, em vez de o fazerem debaixo do colchão, medo que tinham dos ladroes. Cuspiu e sentou-se ao lado dos pobres que também cuspiam.
A cidade parecia pobre, ao contrário da periferia, ali as roupas eram mais baratas, os ténis eram antes sapatos de trabalho e as mulheres dali tinham olheiras e um semblante trabalhador. Os homens também, preocupados apanhavam transportes públicos. Magrinhos. Os restaurantes serviam pão com alface e pouco mais, comia-se de pé. Atravessava-se humildemente os caminhos e chorava-se muito.

O homem, ajeitou um papelão e deitou-se por ali, onde não estorvasse os outros pedintes. A noite chegara. Os homens e rapazes da periferia começaram a chegar, frescos e bem vestidos. Acordadinhos assaltavam de olhos muito abertos os tristes que ganhavam a vida labutando noite dentro, cansados do dia em que pouco dormiram e muito trataram, finanças, escola dos filhos, compras domésticas, trabalho. Resignados deitavam-se no chão, ritual costumeiro terem uma arma pronta a estoirar-lhe os miolos. Resignados só pediam que roubassem de uma vez e os deixassem continuar a trabalhar. Muito ainda havia por fazer.

O homem tudo via, não tinha sono. Convidou uma vadia que passava para se deitar com ele. Ela surpreendida, parou. Tens dinheiro?, perguntou. Não, mulher isso não. A fêmea cuspiu e abalou. Voltou e fez-lhe um Fellatio, engoliu. O homem deu uma gargalhada, se tivesse dinheiro dava-to todo, que belo trabalhinho. Daí em diante a mulher acompanhou-o. Dormiam no mesmo papelão, satisfaziam-se. O homem por vezes procurava outros homens, tentava com eles fazer um filho, não desistiam. A mulher não queria filhos, todavia os outros homens queriam muito. Os homens querem mais ter filhos que as mulheres, discorreu.

Um dia, pela manhã encontrou uma criança num jardim, tinha trabalhado a noite toda, entrara e saíra de carros vezes sem igual. Aquelas eram horas diferentes. O homem e a mulher chegaram-se para junto dele e adoptaram-no. Passou a ter uma família, todos agora tinham uma família. À noite acrescentaram o papelão e dormiram encostados. Resignados, não cuspiam – raios de luz lunar iluminavam o lugar dos seus corações.

Nuno Firmino, às 12h do dia 14 de Janeiro de 2012