– Eu ajudo-a prontificou-se Jesus. Posso empurrar a sua bicicleta, importa-se que o faça?

– Agradecida respondeu a mulher com um sorriso que manteve enquanto caminhava.

– Sabe, eu senti que tinha de retribuir-lhe o gesto. A senhora foi amável comigo, como eu não uso navalha, lembrei-me que a poderia ajudar desta forma.

A mulher fixou o rosto do viajante. Subitamente desmanchou o sorriso e perguntou:

– Quem és tu? Pareces não ter idade…

– O meu nome é Jesus, e é claro que tenho idade!

– Chamas-te Jesus!?

– Sim, chamo-me Jesus, porque gosto do nome. Agora toque a sua flauta Senhora, pois parece que vamos ter clientes. – E Jesus apontou na direcção de três senhoras de idade que seguravam algumas tesouras.

A Mulher riu, mas continuou a querer conversar:

– Ah é assim? Chamaste Jesus porque simplesmente gostas do nome, está bem!

– Sim, e que tem isso de estranho?

– Então, porque normalmente nós temos o nome que alguém nos deu em pequenos e não o nome que mais gostamos.

– Então, mas o meu nome é Jesus simplesmente porque eu gosto.

A mulher voltou a ganhar o sorriso. Notava-se que gostava do que fazia e ao chegar perto das clientes tratou-as como se fossem parte da sua família – toda ela era alegria e carinho para com as velhotas da cidade antiga. Jesus, observando-a, apreciava o que via. Aquela amola tesouras exercia o seu ofício com tal mestria que o simples gesto: de inclinar mais ou menos a tesoura na roda de amolar era um acto feito com tal precisão que até dava gosto olhar. Jesus sabia o motivo porque isso acontecia, mas não fizera qualquer tipo de comentário. Apenas a observava, até porque ele não era muito falador, limitando-se a empurrar durante toda a manhã a bicicleta e a escutar as conversas da mulher moura – essa sim, gostava de falar e comentar o que via e ouvia pelas ruelas de Mértola.

Jesus gostava mais de caminhar por ali ajudando aquela mulher de princípios. Percebera, que ela tivera uma infância complicada – soube ler-lhe uma mágoa antiga e importante no seu coração. No entanto, viu que era honesta e de confiança e que fora educada com amor, pois não lhe notara o contrário. Somente uma tristeza bem escondida num cantinho bonito do seu coração.

– Jesus, não tens trabalho? perguntou a mulher moura, olhando-o na expectativa.

– Precisar de trabalhar é umas das maiores mágoas que tenho, pelo menos da forma como estamos habituados a encarar o trabalho.

– Como assim? Não entendi…

– Então porque ninguém devia ser forçado a trabalhar, tendo como troco a sobrevivência.

– Mas, o que é que tu não percebes? As pessoas trabalham porque precisam de alimentar os filhos, precisam de comer, vestir e calçar.

– Não me interpretes mal! Eu não me refiro a isso, pelo menos nesses modos.

– Então, a que modos se refere o Senhor Jesus? Já vi… És daqueles que tem alergia ao trabalho!

Jesus riu baixinho e disse:

– As pessoas falam do trabalho como se fosse algo penoso e pejorativo, o trabalho não nasceu assim. O trabalho é algo para ser bonito e útil. Tal como tu aí a amolares as facas com total entrega fazes do teu trabalho algo belo e grandioso.

– Hum, agora entendo o que dizes… aliás, foi por isso que deixei um curso superior por terminar e aprendi esta arte… que apesar de não ser gratificante monetariamente, ajuda-me a viver melhor comigo e com os outros.

Jesus tornou a sorrir, mas a conversa morreu por ali.