Numa manhã, o viajante observava os raios de sol criando brilhos à sua passagem – era ainda Primavera e as flores coloriam tudo ao redor. À sua frente estava Mértola, uma cidade antiga, muito bonita, com um rio aos seus pés. 

 

Ao ir até lá, o viajante reparou que, pelas ruelas estreitas da cidade antiga, ecoava o som de um Amola tesouras. Com esta constatação, sentou-se num dos bancos corridos e ficou a olhar o Guadiana… Estava agradado com o que via e ouvia, naquela manhã intermediada de sol e chuva.  

 

Depois, sentindo a poesia daqueles instantes, o viajante enroscou o rosto no parapeito do muro e fechou os olhos, adormecendo de seguida. Por ali, o Amola tesouras continuava a tocar, procurando levar a notícia da sua presença.  

 

 

– Quer aproveitar para amolar a sua navalha? – ouviu a voz doce de uma mulher a despertá-lo do sono. 

 

Com algum esforço, o viajante abriu os olhos e viu o rosto duma senhora a segurar uma bicicleta muito usada. Mas, continuou em silêncio e a mulher voltou a falar-lhe:

É preciso cuidado com este sol, porque nesta época do ano ele anda muito baixo e você ainda se pode constipar – alertou a Amola tesouras. 

 

Agradecido, o viajante respondeu em seguida: 

 – Obrigado, sabe eu acabei por adormecer, embalado com a música que a senhora tocava… 

 

 – Desculpe tê-lo acordado, mas é muito fácil apanharmos uma gripe com a cabeça assim exposta ao sol… Reparei em si enquanto descia. Agora vou seguir, pois hoje ainda não fiz dinheiro algum! 

E a mulher voltou a tocar a sua flauta de pan. Era bonita, tinha traços mouros, o cabelo era preto e os olhos pareciam trazer imagens do deserto que soprava no outro lado do mediterrâneo. 

 

O viajante ficou a vê-la a empurrar a bicicleta – admirando-a. E decide interpela-la: 

 

– Olhe!? Não vá ainda, eu preciso fazer-lhe uma pergunta: existe por aqui algum bar, onde se  possa, esta noite, beber um copo e ouvir um pouco de música ao vivo? 

A sorrir, a mulher moura apontou para uma rua que saía dum entroncamento, depois tornou a empurrar a bicicleta, deixando de se ver ao subir duma ruela. De vez em quando, ouvia-se o som da sua flauta de pan a chamar os clientes. 

 

Permanecendo ali, o viajante ficou a olhar o rio lá em baixo. Havia andorinhas brincando por todo o lado – a voarem alegres numa manhã onde a música de uma Amola tesouras se fazia ouvir.  

Movido por uma intuição repentina, o viajante levantou-se num salto e começou a descer a rua à procura daquela mulher moura que tentava ganhar o dia. Depois, embrenhando-se dentro da cidade antiga, virou algumas esquinas conseguindo alcançá-la facilmente com o olhar.  

 

Ela também reparou nele, mas, não se importando, continuou a empurrar a pesada bicicleta.