2006 foi um ano de muitas provações – o avô falecera nesse ano.

Em miúdo, o rapaz já tinha percebido que o avô não era eterno, que um dia também iria partir e levar com ele todo o carinho e amizade que nunca deixara faltar aos conhecidos e até aos desconhecidos.

O avô tinha sido um mestre para o rapaz, fora ele que o ensinara a pescar e lhe demonstrou que a idade não importa, e também que um homem pode viver com dignidade até mesmo quando as situações saem fora do seu controlo.

O avô falecera-lhe praticamente nos braços: caíra no quintal, sozinho. Mas, a mãe do rapaz, pressentindo algo, foi até lá ver o que se passava e logo chamou o rapaz dizendo que o avô estava caído.

Ali, o avô chamava por alguém – pois não queria morrer sozinho. Então o rapaz abraçou-o e instantaneamente viu-o acalmar-se. Viu nos seus olhos uma calma mágica, verdadeira.

Foi assim que o rapaz sentiu o avô pela última vez, dando-lhe um abraço que será certamente eterno.

» Este avô teve três netos e a todos eles impressionara para sempre… A seguir, o rapaz transcreve um escrito que o primo editou no seu blog “Quintus”, por altura do falecimento do avô.

Fecha-se um capítulo

Com o falecimento do meu avô, esfuma-se da vida real, resistindo apenas na memória toda uma vida passada. A vida da infância, das longas férias de Verão passadas sempre na aldeia onde os meus avôs maternos e paternos residiam nos dois extremos da mesma rua. Uma vida mais simples, onde o papel que desempenhávamos era claro e onde pertencíamos a algo, um mundo mais certo e preciso que a confusa e incerta realidade que um adulto de quase quarenta anos tem hoje de enfrentar.

Era o mundo das longas tardes de Verão que demoravam a passar, da televisão que só começava a emitir às seis e meia, dos quintais com árvores e cultivo onde brincávamos aos índios e aos cowboys e aos cruzados e aos porta-aviões. Um mundo onde os companheiros de brincadeira eram os primos, nas raras mas felizes ocasiões em que nos cruzávamos nas mesmas férias.

Era o mundo mágico do meu avô. Do meu último avô, que ontem faleceu.

Era o mundo de um homem que contava histórias de “rodas do Diabo”, remoínhos que andavam pelos campos tendo no seu seio demónios campestres que nos acossavam.

Era o mundo das encruzilhadas onde se encontravam nas noites mais escuras as bruxas para os seus Sabats.

Era o mundo onde ele começara a construir no Algarve casas de adobe e onde certa vez encontrara um tesouro de Libras de Ouro num pote guardado numa casa em ruínas.

Era o mundo, onde em cada campo havia uma história de um tesouro enterrado numa árvore entre quinhentas.

Era o mundo da “Cova dos Mouros”, uma estranha placa de calcário no meio de um Monte onde se dizia que havia um tesouro dos mouros.

Era o mundo do homem que partira da serra algarvia para o interior alentejano e que fundara três lojas: merceeria, café e taberna, todas umas ao lado das outras e todas servindo simultaneamente.

Era o mundo do homem que me dizia que os porcos comiam e que deixavam depois sair os restos por uns buraquinhos que tinham nas patas e em quem acreditei ao ponto de escrever tamanho detalhe fisionómico numa redacção e levar um “Mau” por causa do dito… 

Era um mundo diferente, um mundo verdadeiro e rural, que não poderei dar aos meus netos, porque quebrei essa ligação com a Terra que os meus avôs tinham e que se encerrou definitivamente com a partida do meu último avô.

Rui Martins

» O ano de 2006 foi o ano do desaparecimento do avô do rapaz, mas também o do surgimento do blog “Montinhos de Luz”. Foi um ano cheio de emoções, onde o rapaz conheceu novos horizontes e novas pessoas…

Para todos (os conhecidos e os desconhecidos), o rapaz deseja um ano de 2007 com saúde e amor.