Se há coisas que tocam o espírito humano, sem dúvida uma delas é o som. Não importa se é agradável ou não, toca o espírito. Um simples silvo, um quase inaudível bocejo têm a particularidade de penetrar em nós.  

Por vezes, nesses bares, o viajante ouvia bandas que tinham um som agressivo, e reparava como essa música influenciava quem a ouvia… moldando a aura das pessoas. Sintonizando-as. Encaminhando-as de encontro a um determinado sentimento. Era assim que determinados propósitos eram atingidos pelas editoras. Apercebendo-se que a força da música é essa: a de gerar sentimentos! E sabendo que o ser humano não se importa de pagar para sentir. O resultado estava à vista – lucro fácil! 

A nossa mente é facilmente influenciável, facilmente seduzida e, sendo dominada, as pessoas ficam desacauteladas – à mercê de interesses. Pode levar o seu tempo, mas sempre existe o tempo necessário. Essa paciência faz parte de um jogo. 

Não era este o rumo a ser tomado pelo viajante porque antes de mais: o desejo exacerbado de conseguir, leva irremediavelmente ao fracasso; a um aparente desmoronar. Tudo na nossa mente é ficção quantas vezes as atitudes mudam, mas apenas temporariamente, porque alguém as sugestionou a mudar e quando essa influência deixar de existir tudo retorna ao normal. A mente é um entrave a uma mudança definitiva. Não pode ser através dela! Por isso, as pregações nem sempre fazem real efeito. Porque, por norma, a palavra é recebida mentalmente, tal como grande parte da música também é destinada à mente. Essa mente deturpa, filtra, cria significados… enfim, ilusões.

Sabendo isso, o nosso viajante não se importava nada quando a qualidade dos músicos não satisfaziam, ele entendia as razões. Era fácil descortinar várias razões. No entanto, escutava-os sempre, e até gostava de agitar o seu longo cabelo ao ritmo da música, incentivando, com isto, quem tocava. E, curiosamente, este facto, de os músicos o observarem a fazer o simples gesto de abanar a cabeça ao ritmo da música, fazia com que deles se libertasse outra essência, melhorando, muitas vezes, a dita qualidade musical. Esta constatação agradara bastante a Jesus. 

Os bares interessavam-lhe, escutava música ao vivo, bebia uns copos e também observava as pessoas. Sentado, quase sempre calado e sozinho, absorvia aquele ambiente de pessoas que procuravam a vida onde ela é mais escassa. Jesus sabia que a existência é muito criteriosa nos seus objectivos e que a energia corre na direcção para onde a enviamos. Por isso, a permanência, de cada uma daquelas pessoas nos bares apinhados de gente, tinha uma razão: era necessária, porque fazia parte. Só experienciando, um dia mais tarde compreenderiam totalmente a verdade. Aquela estadia temporária entre fumo e vidros partidos, a seu tempo seria útil – despertaria aquelas pessoas para uma determinada direcção. 

Durante algumas semanas, o jovem viajante intercalou as noitadas com os dias passados a andar. Preferia caminhar por caminhos antigos, pelas estradas ainda em empedrado, não apreciava muito o alcatrão. Também raramente aceitava ou pedia boleias – tinha tempo!