O viajante regressou ao início da madrugada e trazia um sorriso no rosto – a conversa limpara-lhe a alma das dúvidas e o ânimo reanimara-lhe a esperança. Trazia um novo método: ser músico! Levar a sua palavra através da arte de conjugar sons agradáveis, a arte de atrair, de seduzir. Levar a conhecer a verdade através de um meio muito eficaz – a música! 

Em pleno início do século XXI, ele podia dar-se ao luxo de escolher entre vários instrumentos disponíveis ou até podia ser cantor, mas cantor implicaria falar uma língua que fosse entendida por todos, e no princípio do terceiro milénio isso era ainda uma utopia, embora cada vez mais próxima da realidade com a proliferação do inglês. Desta vez, queria que todos entendessem as suas palavras! E, para isso, tinha uma flauta na mão – a pequena flauta parida por um pastor – Sim! Servia perfeitamente, pois o viajante sabia que a língua das notas musicais é universal e o instrumento utilizado por elas: apenas um trilho para caminhar. 

Quando o dia alvorou, estava pouco vento, mas não lhe apetecia vento por isso não interpôs a sua vontade aos elementares. Enquanto isso, dos ramos das árvores saíam cânticos vindos dos pássaros, abençoando a alvorada do dia… Isso interessava-lhe, pois é difícil igualar o canto dum rouxinol ou o de uma cotovia ao levantar voo. Embora, o viajante soubesse a razão por detrás dessa dificuldade, como por osmose, tentou tornar-se no rouxinol, no entanto, ele sabia que era apenas um homem e não um pássaro. “Mas, que mal há em sonhar!?”. Imaginou, estão, que era o rouxinol e começou a querer cantar, e cantou tanto que o rouxinol calou-se, perturbado com a desafinação daquele tão estranho companheiro. E o viajante deu uma enorme gargalhada. 

Tinha aqui um problema: para cantar e, assim, passar uma mensagem, já existem pássaros tão divinamente dotados – e a generalidade dos homens não os escutam, preocupados com o dia a dia nem escutam o cantar dos pássaros.  

O rouxinol, entretanto, retomou a sua cantoria.

“Deve de haver algum modo realmente eficaz de passar a verdade através da música”. Mas, também ele desconhecia qual. Sabia que era preciso fazer o género de uma sintonia! Este é o objectivo. Como quem procura uma emissão de rádio. É preciso encaminhar as pessoas por um trilho até que consigam captar a emissão. Mas, como fazê-lo sem que haja uma vontade propositada delas em se sintonizarem!? Tem sido este o seu eterno dilema. Porque nem em todas as pessoas existe essa predisposição. Tinha mesmo uma tarefa complicada para levar a bom porto. É preciso fé! Se assim não for tudo continuará na mesma. A não ser que fosse desnecessário o querer das pessoas. E a música predestina-se naturalmente a este propósito. Tem uma suprema facilidade em tocar o ser vivo. Porque têm a mesma génese. A música é vida. E poderá facilmente moldar o ser. Basta apenas descobrir o truque pois tudo tem um jeito próprio. Aliás, ele até sabia o truque porque em última análise o truque de tudo é um só. Mas colocá-lo em prática? Qual o meio apropriado de o aplicar na pequena flauta? O viajante nunca havia tocado flauta, mas também não era esse o problema, até iria facilitar o propósito de uma verdadeira originalidade, o complicado é colocar os dedos a obedecerem a Deus e não à mente. 

O viajante dirigiu a flauta à boca e soprou, tapou um dos furos e destapou-o. E o que estava, ao seu redor, em harmonia: o rouxinol a cantar, os insectos voando com os beija-flores, o restolhar das ervas, tudo isso entrou em desequilíbrio com o seu tocar de flauta. Era o efeito oposto que desejava. Por isso, voltou a soprar e tapou outro furo; tapou-o e soltou-o, tapou-o e soltou-o e repetiu este gesto muitas vezes. Até que, por fim, guardou a flauta no bolso e, pensativo, reiniciou a caminhada. 

Deste episódio para a frente: tudo mudou! O jovem viajante começou a pernoitar nas cidades só com o intuito de entrar nos bares. Sentava-se, pedia um vinho generoso e ficava calmamente a ouvir as bandas tocarem. Escutava-as sempre em silêncio, permanecendo nestes bares até esgotar o dinheiro que trazia no bolso. Depois, continuava a sua caminhada – era um mendigo. Não era bem um mendigo, antes um homem de muitos ofícios, mas não de muitas pregações, pelo contrário, passava sempre discreto, como um sopro que entra mudo pela cidade ao anoitecer e, depois, vai embora. 

Era assim que ele queria, por enquanto…