O velho das barbas vestiu um casaco vermelho e saiu para a rua. Sabia que os outros o julgavam louco, mas ele não ligava às provocações alheias e até costumava responder: “Os cães ladram e a caravana passa!”, acrescentando, Este é o lema de quem dá valor aos sonhos… E ele, naquela noite de Natal, guardara um presente no bolso das calças para entregar a alguém especial.

Desceu uma das avenidas mais movimentadas de Lisboa – que naquela noite não parecia igual – e ao atravessar numa passadeira, olhou um menino que viajava num belo carro: o menino sorriu-lhe. O velho acenou-lhe e continuou a andar – em pequeno também tivera muitos sonhos, queria ser piloto-aviador ou padeiro, mas acabou por cair na vagabundagem, como tantos outros que tiveram o mesmo sonho de um dia serem alguém.

O velho das barbas nunca pensou que este seria o seu fim: mas, na juventude, quando a maior parte das lições de vida ainda não foram aprendidas, o velho cometera muitos erros, e pagou-os bem caros – vivendo para sempre uma vida de tristeza e de solidão.

Até na noite de Natal, ele estava sozinho… No entanto, não era isso que o perturbava! Mas, sim, o facto de deixar “alguém” sozinho naquela noite.

Ele gostava de uma senhora – ela tinha olhos grandes e um coração ainda maior – e também ela deveria estar sozinha, desprezada por todos, até por aqueles de quem ela cuidou com tanto carinho – quando trabalhou como ama-seca na casa de uma patroa abastada. Mas, a vida é assim mesmo: ensina muitas coisas com o passar do tempo e uma delas é a perdoar os esquecimentos daqueles de quem gostamos.

Mas, o velho não se esquecera da senhora e estava determinado a ir ter com ela – já a imaginava com um sorriso no rosto a agradecer-lhe o presente. Com isto, jogou a mão ao bolso das calças e não mais encontrou o presente: o bolso estava rasgado e o pequeno embrulho desaparecera!

O Velho das barbas não queria acreditar, as lágrimas soltaram-se e ele chorou por muito tempo. Já não tinha coragem de ir visitar a senhora. Estava desolado – até na noite de Natal a vida lhe tinha pregado uma partida.

Sentou-se num banco de jardim – a noite estava fria e o casaco era pouco quente. Por vezes via a imagem da senhora, mesmo assim, a chamá-lo para ir ter com ela… Mas eram só visões da sua imaginação.

Desistiu da ideia de ter companhia, afinal, aquela era uma noite igual a tantas outras, porque ele era um vagabundo e os vagabundos não têm direito ao Natal – a solidão é o único direito e o único dever de um vagabundo.

Por acaso, alguém sentou-se ao seu lado – um jovem de cabelo longo e olhos de um acastanhado parecido ao das avelãs. Como o vagabundo sentia-se especialmente só, desabafou com ele coisas que nunca tinha contado a ninguém. Atento, o jovem ouvia tudo, até as passagens mais escabrosas, mantendo um sorriso doce tão parecido ao da senhora que o velho quisera agradar. Depois – quando terminou a conversa – o jovem tocou-lhe no ombro e o velho sentiu uma alegria imensa. 

» Nessa noite, o velho das barbas venceu os seus demónios e acabou por ir ao encontro da senhora: que não esperava receber uma prenda de Natal, mas tinha aguardado a vida inteira por alguém que desse valor ao seu coração.