Passaram-se alguns dias.

O jovem viajante, recostado ao tronco duma azinheira, entregava-se ao silêncio da noite e nas suas mãos a flauta do pastor servia apenas de brincadeira: ele jogava-a ao ar a rolar e, depois, apanhava-a com um gesto rápido… E nem por um momento pareceu ter curiosidade de a tocar, para ver se conseguia fazer algum tipo de som agradável… Não! Durante uma semana, apenas usou a flauta como arremesso de atirar ao ar, ou como ponteiro para fazer algum tipo de rabisco no chão.
No entanto, naquela noite, sem querer, a flauta escorregou-lhe da mão e rolou pela encosta abaixo: saindo do alcance da sua vista e levada pelo vento cada vez mais forte. Era Primavera e, como tal, invulgar este tipo de vento forte, mas o rapaz gostava de sentir o vento e, por isso, o vento cada vez soprava mais forte, até que quase arrancou a azinheira: nesse instante, como quem obedece, parou…

Surpreendido, o rapaz levantou-se ao escutar o som da flauta que, lá em baixo, no vale, declamava a verdade da vida – que já inúmeras vezes havia escutado doutras formas.

– Porque voltou? – perguntou, em seguida, o rapaz para a extensão escura à sua frente.

Mas, sem resposta, tornou a falar para a escuridão do Vale.

– Pensei que já não vinha!? Agora deu em me abandonar! – só que a música nem por um momento deteve a sua história e o rapaz persistiu:

– O céu está tão bonito e ouvi-lo tocar sob ele é maravilhoso, mas eu também gostava que os outros o pudessem escutar. Permita-o, porque a mim eles não me escutam, a maior parte não me ouve… ou não me entende.
» Tudo continua a piorar, inventam coisas destrutivas e assim brincam… jogam ao ar e fazem planos, com essas coisas a servir de ponteiros; raramente usando os meios que inventam para trazer beleza ao mundo… Eles não tomam atenção à vida; e têm-na nas mãos, a escolha é lhes concedida… Mas, como sabe, a mente não escuta a sua música, será que devemos continuar?

A flauta secou o toque, e o jovem viajante simplesmente desapareceu – não houve nenhum raio, nenhuma luz, nada.