»Tudo se resume numa única palavra: “música”! … Mas, o que é a música? Será como alguns dicionários mencionam: música – arte de conjugar sons agradáveis, arte de atrair, de seduzir. Se assim é, talvez o maior músico de todos os tempos: tivesse sido Jesus.

Prólogo

O viajante rondava os trinta e três anos e usava o cabelo longo, não tinha cabelos brancos, nem sequer qualquer ruga. O seu corpo era esguio como um lençol que bamboleia ao vento e os seus olhos eram de um acastanhado parecido ao das avelãs, brilhando num rosto de menino. A verdade é que ele não parecia ter a idade que tinha – mas tinha-a – e saía dele uma luz parecida à dos recém nascidos. Na verdade, ele não parecia sequer ter idade alguma. Era estranho, mas a explicação era curiosa…

                                                         I          

O viajante caminhava em paz por um trilho e o sol aquecia-lhe a pele. À sua passagem,  as framboesas formavam agradáveis paisagens, que os seus olhos gostavam de ver bonitas, a alindar a tela do criador.            

Pelo campo aberto tudo se deparava esplendoroso.            

–  Faísca – soou uma voz vinda de longe, ecoando pelos campos da lezíria – vai buscá-las que se estão a tresmalhar… rápido! – ordenara a voz. 

Ao ouvir isto, o viajante de figura fina parou a marcha: ficando a observar um cão pastor que tentava arremessar duas ovelhas que se haviam tresmalhado do restante rebanho. O cão, com uma louvável copiosidade, rapidamente cumpriu a missão que lhe havia sido atribuída momentos antes, e retornava agora altivo para perto do pastor que o esperava imóvel, sentado numa pedra alta – como se estivesse em cima de um palanque a dirigir uma orquestra.

– Quem é você? – perguntou o pastor ao viajante, que entretanto se aproximara. – Amigo, eu venho em paz porque vim beber da sua sabedoria. – respondeu-lhe prontamente o viajante.

– Palavras sábias as suas, pois um homem com sede apara com humildade a água que brota da fonte. Olhe, jovem, eu pouco sei… mas sente-se aqui ao meu lado. Porque talvez a única coisa que eu saiba é carregar às costas a sabedoria dos outros e a tristeza de um passado humilde e de uma vida sem as alegrias da riqueza… Se isto lhe interessa, olhe, sente-se aqui um pouco ao meu lado!    

O viajante assim fez.                

 –  Vejo que está aí entretido a fazer uma pequena flauta. Peço-lhe que toque um pouco… – pediu o viajante. 

     Sim… É uma flauta! Nós, os pastores, costumamos sempre ter uma, para nos entretermos nos dias calmos desta rotina do pastoreio.  

     Eu sei disso. E essa está quase pronta, toque um pouco… Peço-lhe amigo. – tornou a repetir o viajante com uma voz serena, como se a sua voz também ela saísse da flauta de um pastor.  

Então, o velho pastor tocou por alguns instantes uma melodia: a sabedoria da vida humilde de quem nasce pobre. Notas tristes de sofrimento, amarguras, dores físicas e uma mesma solidão que o viajante reconheceu, e que também já tinha ouvido noutras flautas… ricas, banhadas de luxúria.        

Em seguida, levantando-se, o viajante despediu-se do homem com um afago bondoso no ombro. O pastor pediu-lhe, no entanto, que aguardasse mais alguns minutos. Acedendo, o jovem caminhante tornou a sentar-se, numa espera silenciosa, até que o velho lhe estendeu a mão para lhe ofertar a flauta já terminada: era esta a sua prova de agradecimento, por uma cura que julgara ter acontecido com o simples toque do viajante.

Grato, o jovem aceitou a flauta dizendo:          

 – Um homem humilde sabe escutar a alma, que lhe fala de muitas maneiras. – de seguida, o viajante pôs-se a caminho, prosseguindo a jornada que iniciou há já bastante tempo e que se tem prolongado apenas pela sua vontade.