Num dos seus últimos comentários, a Bett Salgado lembrou-me que, em tempos, eu já escrevera poesia. De facto, na adolescência, por muitas vezes a poesia fora minha confidente – mas agora, passado alguns anos, embora eu continue a gostar de ler poesia, escrevê-la já não consigo.

Os versos que se seguem foram escritos entre 1990 e 1996 e chegam até a ser ridículos, mas:

“As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas”.

Álvaro de Campos, 21-10-1935

*

POESIA IMPERFEITA

“Sinto-me um ser alado que voa com as asas da vida”

MEU ANJO

Chora.
Grita ao vento!
Chora…
Solta esse lamento,
quebra o tormento.
Conversa com o vento!…

PÁSSARO DE FOGO!

Vem… tira-me os olhos!
Bate-me!
Arranca-me a alma,
sente a minha dor.

Não, não rias!
Apenas chora,
lacrimeja comigo.
Abraça-me com força,
corta-me o cabelo…
faz-me renascer…
– sentir
viver… sonhar
e… (porque não?) lutar!

O MENINO SORRIU COM A RESPOSTA

Está toda a gente triste,
só o poeta resiste.

– Cobarde!

Alguém grita bem alto

O poeta diz:

– Cobardes são aqueles
que têm receio
de mostrar amor. E se escondem
por detrás da dor
sofrida em silêncio.

Está toda a gente feliz,

o poeta diz:

– Corajosos
são aqueles
que sem pensar:
olham e rezam ao luar!

E um pequeno rés petiz,
Pergunta:

– Poeta, você o que é ?
Cobarde ou corajoso?

– Sou um ser talvez ainda por inventar,
tal não é a minha vontade… de amar!

DO FUNDO DO CORAÇÃO

Queres ter-me.
No entanto fazes-me sofrer.
Dizes:
Que … me amas!
Que me desejas!…

E, agora…
afastas-te de mim!
… sim!
Foge!
Afasta-te de mim,
corre e não pares.
Corre! Não olhes para trás,
Sê feliz!!!

VOZES AO VENTO

Gritos de incenso.
Devaneios de farra com a garra dos sonhos.
Tempos de glória, sem memória… Já sem história.
Sensações que o vento levou e mudou com a idade que já passou.

E, Afinal?

SOPRO DE VIDA

Busca em mim o sopro da vida,
Porque em mim ele não tem fim,
faz parte do meu ser
é a razão de eu ainda existir.

Mas se um dia, também ele partir…
Não tenhas medo!

Meu amigo:
Nem a morte ri assim!!!

O TEMPO

O tempo que falo é um artista.
O maior dos mestres!
Tudo ele resolve
… tudo ele esquece!
Com o assombro da eternidade:
tudo ele serena
tudo ele apaga
tudo nele é dúvida
tudo, agora… é certeza!!!

SEM TÍTULO

Porquê tanta dor? Tanta fome? Tanta miséria!?
Afinal, será que temos a culpa?
Sim, certamente! Pois, não há ser que exista e que não faça sofrer,
neste mundo onde a solução
também é ilusão.

PECADOS MORTAIS

Sentei-me num degrau escolhido ao acaso, na escadaria da vida.
Aí fiquei a contemplar uma paisagem serena e destemida, saída pela porta da felicidade.
Mas, sem motivo: a porta fechou-se. Abriu-se outra, saindo de lá uma névoa.
Uma névoa que me envolveu e empurrou em direcção a… – Ela!
A vista que enxergava era deslumbrante, a casa era linda, a decoração mesmo como eu gostava.
Tudo parecia retirado do mais lindo sonho.
Sem pensar… entrei. Fiquei nesta casa que me fascinou, mas também me cegou.
Aos poucos, deixei de ver claramente , deixei de raciocinar, deixei de acreditar em mim!
Só contava a casa, eu lutava, eu sofria, eu chorava… por Ela!
Uma sensação estranha apoderou-se de mim. Tinha dores horríveis, quando me afastava
mesmo que por instantes. Pareciam farpas espetadas com afinco no meu corpo, com o remorso.
Se fosse crente dizia que estava enfeitiçado por esta…
Um dia, num momento de luz, apercebi-me:
… Ah! Mas eu não gosto desta música! E esta roupa?!… que bebida é esta?
Que sentimentos estes que agora habitam em mim… não, eu não sou assim! Eu não me sinto bem assim!
Basta!!! Vou-me embora!
E agora que se passa? – Não consigo abrir a porta! Está encravada… estou preso!!!
A porta empenou e me trancou… o tempo me trancou!
Agora, amigo… já não tenho mais forças. Falta-me a vida. A vivacidade para quebrar e me soltar da teia. Desta teia, tão maliciosamente tecida às paredes da infelicidade!

EM SETEMBRO

Foste minha em Setembro entre fontes e águas.
No rosto carregavas a luz do Verão,
no cabelo o brilho do mar.
Em meus olhos logo esculpiste a tua pele, as tuas formas.
Ah! Doce endiabrada. Caminhavas ligeira, olhar de amora silvestre.
Olhar bravio, sonhador.
Encostada ao balcão pedias flores.
Margaridas, tua mãe estava doente e querias alegrá-la.
Afortunado! Caiu a flor: Ajoelhei-me… Apanhei a flor, coloquei-a no teu cabelo…
Foste minha em Setembro entre fontes e águas.

«MEU IRMÃO»

Tu
Ressuscitas os muros,
Sem medo, Sem senso.

Com sede de realidade,
aclamas sociedades,

Espelhos de cimento onde nos pintas.

GRITO DE MULHER

Pelas ruas onde passas
há um grito,
um grito que chama por mim.

Mas se queres que eu pense
que é verdade sem fim.

Isso não!!!

Pois grito de mulher,
tem mais de ilusão
que tem… de paixão!

QUEM SOU

Procura-me nos sítios
mais estranhos
que consigas imaginar:
por baixo duma cama,
no cimo duma nespereira,
ou mesmo agarrado a um candeeiro apagado.
Sou assim! Só assim me sinto bem!
Os clichés enojam-me… não têm espontaneidade…
falta-lhes a Poesia
torturam-me e enlouquecem-me.
Eu afinal, procuro ser uma pessoa normal!!!

“A BORBOLETA”

Desvanece em teu rosto o medo,
despe o receio.

E nua,
volta a encher
os meus braços
de sorrisos e ternura…

NÃO AGUENTO MAIS

Faz-me apenas um favor: toma conta da flor. Cuida-a com carinho.
E não fales com ela! Não iria aguentar, iria sofrer, morrer…
Secar em tuas palavras falsas.

TU, ESCULTOR

Forja a minha vida numa pedra colorida,
talha o traço da vida sofrida… mas amada!

ÓLEO DE TERNURA

Por ti…
pinto a vida
num óleo
de ternura!

Só a ti!
Eu quero… amar.

ODE À LÍNGUA PORTUGUESA
I

Ah… minha Senhora!
Musa da nossa Pátria.

Língua Portuguesa,
fugaz melopeia
de mundos perdidos
de sonhos escondidos.

Sua excelência!

Minha língua
de Pátria renascida.

Senhora!

Que entoa na sua voz
o hino da indignação

Senhora!

Que escreve no desespero,
as lágrimas da ilusão.

Senhora!

Que agora se revê
neste rascunho escrito de… desilusão.

Porque tanto sonha?
Porque tanto grita?

Se muitos
são aqueles que a ouvem,
poucos são aqueles que no seu olhar,
esculpem…
o dom da palavra.

II

Ah… minha Senhora!
Musa da nossa Pátria.

Venha!

Venha moldar
nas suas palavras
o corpo da sedução.

Venha!

Venha desbravar
esta nova era,
erguer em seu punho
… o rosto da nossa nação.

Sim!

Se ainda tem vontade de lutar!

Venha!

Venha rescrever a história
do nosso povo.

Venha!

Venha deslumbrar
com as suas doces canções
os quatro cantos do mundo.

Ecoar na sua doce sensatez
o tom que enlouquece os elmanistas.

III

Ah… minha Senhora!
Musa da nossa Pátria.

Por si!

E em seus braços…
tantas vezes os bebés adormeceram.

Por si!

E em seus braços…
tantas vezes os amantes choraram.

Tantas vezes…

o ódio de punhais sangrando
desferiram o golpe mortal.

IV

Ah… minha Senhora!
Musa da nossa Pátria.

Por entre os mares bravios

o vento divulgou
a formosura dos seus dotes

o vento desvendou
a sensualidade das suas vestes.

E por si!

O escritor se jogou ao mar
na ânsia de a salvar

como eu agora o faço
nesta vontade de a cantar.

V

Ah… minha Senhora!
Musa da nossa Pátria.

Guardiã da nossa voz.

É das suas palavras
que a obra
modela o sentimento.

É das suas palavras
que a obra
expressa… o lamento!

Grita nesta alameda
de palavras sentidas
dando asas ao tormento.

Não!

Não se esconda!

Antes, tome em seu andar
a altivez de outrora.

Antes, tome em seu olhar
a lucidez da esperança

ténue já caminha a herança…

Erga-se!

Desminta os falsos dizeres
que difamam a linhagem
de seus discípulos.

Desminta todos aqueles
que sem escrúpulos
vendem as cores dos seus filhos

ai … que desespero,
e nem para si olham!

Sim!

Erga-se!

Erga-se perante o gentio
de pessoas infames
que numa sede de vitória
se esquecem das memórias
da nossa… lendária história.

Erga-se!

Erga-se que chegou o momento.

O momento de renovarmos
a nossa identidade.

O momento de retomarmos
a nossa jovialidade.

E no cimo das cinco colinas
reconstruirmos
o lar da nossa herança.

Fugaz melopeia
encantada,
ninho de virtudes…
abençoadas
na história desvendada.

VI

Ah… minha Senhora!
Musa da nossa Pátria.

Vagarosa caminha
a Senhora,
deambulando
nos confins da memória.

Vagarosa caminha
a Senhora,
murmurando
as rezas inaudíveis desta quimera.

Ai… que desilusão.
E a Senhora
que não anda!

Ande… Senhora!

Ande!

Venha quebrar o feitiço
… deste destino,
perfumar este intimo
sem alento.

Ande… Senhora!

Ande!

Venha mudar o rumo
… deste canto,
repousar
neste lençol sereno… compassado.

VII

Ah… minha Senhora!
Musa da nossa pátria.

Melancólica submissa
que das entranhas
solta um suspiro
disperso na névoa da Pátria.

Não!

Não me ofusquem o olhar!

Eu!
Nesta barcaça de cólera,

vou tomar em meus braços
o feroz leme
do leito apetecido.

Eu!
Nesta barcaça de cólera,

vou tomar em meus braços
o escuro que persiste
da obscura janela do silêncio…

vou tomar em meus braços,
o esplendor da senhora
que aprendi a amar!

VIII

Ah … minha Senhora!
Musa da nossa pátria.

Como é injusto o mundo…

Tão universal é a sua tristeza,
… minha Senhora.

Tão universal é a sua beleza,
… minha Senhora.

Como é injusto o mundo…

Senhora!

Senhora… de todos os poetas.

Feiticeira!

Feiticeira… de todos os poetas

num rompante
talvez… um capricho.

Tudo muda!

Que fazer?

A mão hesita…

Que pensar?

Ai… estou confuso!

Que fiz eu?

Não!

Não me abandone…

Antes flua…
flua dentro de mim!
Nade nua
acaricie o meu intimo
revele-me os seus segredos
deixe-me ser o seu amante.

IX

Ah… minha Senhora!
Musa da nossa Pátria.

Tantos corações destroçados

nas ilhas
… ficaram.

Tantos corações destroçados

nos mares,
… tombaram.

Tantos corações destroçados

por esses continentes
padeceram pelo esplendor do seu olhar

… tantos corações destroçados!

X

Ah… minha Senhora!
Musa da nossa Pátria.

… Paisagem de tons angélicos.

Ímpeto de alegria
trespassada
pelos cantares
dos recém nascidos
procurando o seu peito

… Paisagem de tons angélicos.

Soneto de maresia
profetizada
pelos ciares
dos antepassados
fugindo do seu leito.

XI

Ah… minha Senhora!
Musa da nossa Pátria.

Ai… este fascínio!

fascínio de uma sombra
galgando um pedaço de papel pardo,
a caneta deambulando embriagada
expressa o sentimento
de imagens destorcidas
de vontades recalcadas.

Ah… como é bom!

E o dilúvio de sensações… prossegue.

A beleza espelha
águas de clausura
sob a míngua
de sombras
galopando na mão amena.

Ah… como é bom!

E o dilúvio de sensações… prossegue.

Ardor crispante
desabafo rasgando
a pele embevecida
da minha mente.

Ah… como é bom!

E o dilúvio de sensações… prossegue.

Na redonda esfera
jaz agora a tinta
soluçada
por um júbilo azul…

e a caneta então repousa.

XII

Ah… minha Senhora!
Musa da nossa Pátria.

No conversar desta gente,
a Senhora… nasceu.

No conversar desta gente,
a Senhora… cresceu.

No conversar desta gente,

ora passeando!
Ora navegando!

Se fez Senhora!

Sim!

A Senhora… da nossa Pátria!

*
Estes foram os poemas que ficaram, os outros foram-se perdendo com o tempo…