Acabando e iniciando

Amigos, é impossível afirmar que um blog como o Montinhos de Luz, que desde 2006 encontrou o seu espaço na web e que foi sempre tão amado, acabe. Simplesmente isso, estou certo, nunca acontecerá porque vai continuar visível pelos anos vindouros e a sua luz vai continuar a alumiar os meus montinhos de palavras. Quando comecei este meu primeiro e único blog (até à data de hoje) em 2006, éramos tão poucos em Portugal que era frequente o meu estar no top 10 (talvez fossemos só 10). Seja como for, o Montinhos de Luz, com a sua intemporal poesia, agora está em repouso. Mas é ele  o meu mestre e foi ele que me ensinou tudo sobre blogs. É então com esse saber que agora, Novembro de 2016, lanço o meu blog novinho em folha, começou o Dois Dedos de Opinião e Relaxe. Espero que gostem e que o sigam se se sentirem identificados. Votos de bem-estar e até já.

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Orlando Santos

O meu amigo Orlando, colega de tempos idos. Difícil a sua vida mas bela a sua música, fico feliz que tenha saído de tão escura obscuridade, de tão sombria e difícil via e tenha finalmente singrado na sua existência. Sim, desconheci-o e não me esqueço, mas tão triste e medonho era o vislumbre, temi e virei para o lado. Mas ele sempre me reconheceu e sempre as suas palavras procurou partilhar. Fico feliz agora Orlando, tal como fiquei triste noutros tempos, talvez isto me possa desculpar. A amizade é pura em sentimentos por isso é amizade. Nuno Firmino

Existia para os carros, mas não para mim. Até que…

Vi o carro e a doçura do seu movimento era leve como a esperança. Engoli a saliva e refiz o olhar. O carro já curvou. Fiquei sem saliva na boca e sem o carro na esperança. Todavia o olhar está presente, refeito. Vi então o mar olhar a água da minha garrafa, escondi-a dele, voltei-me e bebi a água sem o olhar dele. A água é minha paguei-a, pertence-me. Depois avancei um passo ou dois, com certeza que não foram três, porque salto sempre ao terceiro, manias. Depois desse primeiro ou segundo passo, escarrei a saliva em excesso que como uma maré viva inundou-me a língua a dentição e a vontade de saltar. O mar troçou do meu escarro, vejo-o recuar e depois expelir um escarro gigante que salpicou de saliva salgada os veraneantes. Sinto-me pequeno junto ao mar, ínfimo. Detesto-o por escarrar bem melhor do que eu. Viro costas e salto de novo para o meio da estrada, persigo o carro de movimentos sensuais, doces. Detesto salgados, mas um qualquer pastel me tira do sério. Onde o carro curvou não o encontro, no seu lugar estão gestos e palavras obscenas de condutores de carros salgados, escarro-lhes os vidros, eles não notam que o faço, sinto-me inútil. Somente o facto de existir e de essa materialização poder caminhar pelo meio da estrada, dá interesse às minhas horas, sinto-me importante, quando caminho dessa forma. Sinto que não sou um sonho. A minha vida é importante para quem conduz e isso é uma realidade indiscutível a  todos aqueles que julgam que ninguém repara neles.    

Todavia aquele carro doce, sensual, desprezou-me. Nem um olhar, um piropo. Sigo no seu encalço, salto para o passeio porque a minha vida ganhou um propósito, um valor acrescentado que é preciso preservar.

Cem vezes ou mais

Do Diário de Leituras à venda nas Livrarias Bertrand

Existem registos que gostaríamos de apagar das nossas vidas, esses são os registos que o caderninho de leituras vai trazer à nossa memória cem vezes ou mais. Não, não deixarei que isso aconteça comigo. Irei esquecer este post como se já um velho fosse e depois irei ler e reler o que a vida me propuser de novo.

A Vontade

Estimada senhora Maria do Rosário Pedreira,

Admiro a sua poesia. Gosto de a ler principalmente no inverno, ou outono.

Também escrevo, não poesia. Mas gosto de ler, gosto de poetas.

Li o seu post sobre o anuário para o dia mundial da poesia, e tive vontade de tentar escrever uns poemas para enviar. Fiz então este:

A VONTADE
Soube que a vontade me deseja, pensei que o amor era simples, não. Tudo dói. Enrolo o polegar no cabelo e sinto o gesto. Demência, desconheces-me. Sou livre, subo pela vida à solta. Elevo o espírito com a paciência da chuva que desfaz o canteiro. Sonha com outro, imagina quem te ama e obtém essa porção de mim que não gosto. Sejam tristes, chorem e solucem. Fico melhor sem ti, estarei completo.

Valerá a pena continuar? Está longe do nível que gosto de ler (e respondi a mim próprio).
Por favor, escreva, senhora Rosário, que bem precisamos de boa nova poesia. Até porque vem aí o verão, e ficarei sem a ler.

Abraços,

Nuno Firmino

Engordar a voz

A nossa voz literária é sempre a nossa, o mesmo que ir procurando na oralidade a isenção de colagens e aproximações. Todos já nos sentimos a imitar alguém quando com ele interagimos, fomos contagiados. Então, uma das receitas para encontrarem a vossa voz aqui vos deixo: fiquem algum tempo isolados, sem contactarem com o mundo literário até sentirem que a voz com que escrevem já é a vossa. O que não invalida de primeiro aprenderem o abecedário. Depois, venha a persistente solidão.

Contudo, será que a vossa voz é interessante?

Se isso importa, olhem o mar e desenhem nas nuvens.

Porque sentir-se realizado é mais importante que engordar vaidades.

Do diário de quem sou

Coisas que eu nunca suportei: Falta de educação, por exemplo, falar torto. Pessoas que são ajudadas e depois são ingratas. Ingratidão. Não ser ajudado por quem ajudei. Feio, muito feio e tira-me do sério. De resto, sou calminho. Porém, nestes tempos é difícil manter a calma. E falarem de costas para mim quando sou tido na conversa. Ah, e não tentar manter a permanência, é outra coisa chata.

E há dias em que tudo se junta.

Adoro gatos. Agora, enquanto escrevo, tenho uma deitada no meu colo. Adoro, e fazem-me tão bem. Fazem bem.

A senhora que enterra gatos, devia antes enterrar os seus bravos cães. Que cães desses poluem mais que escape de ónibus. Ou enterrar-se.

Hoje não a defendo, antes ataco e lhe cuspo.

Bem assinado: Nuno Firmino