Novembro 21, 2006...10:57 am

Portugal, país de poetas III

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Durante a minha vida conheci pessoas que, por terem muitos estudos, prezam ser intituladas de mestres. No entanto, nasceu em Portugal quem sendo semianalfabeto (um simples guardador de cabras e depois cauteleiro) – tenha sido, sem estudar, Mestre. Pois, a sabedoria à qual aqui me refiro, essa mestria maior, não se alcança lendo muitos livros, mas sim na disponibilidade que cada um de nós coloca em observar a vida quotidiana.  

Analisem vocês mesmos:

Eu não tenho vistas largas,
nem grande sabedoria,
mas dão-me as horas amargas
lições de filosofia.
 

P’ra mentira ser segura
e atingir profundidade,
tem que trazer à mistura
qualquer coisa de verdade.

Sei que pareço um ladrão…
mas há muitos que eu conheço
que, não parecendo o que são,
são aquilo que eu pareço.

Quem prende a água que corre
É por si próprio enganado;
O ribeirinho não morre,
Vai correr por outro lado.

Veste bem, já reparaste?
mas ele próprio ignora
que, por dentro, é um contraste
com o que mostra por fora.

Os novos que se envaidecem
Pelo muito que querem ser
São frutos bons que apodrecem
Mal começam a nascer.

Quem nada tem, nada come;
E ao pé de quem tem de comer,
Se alguém disser que tem fome,
Comete um crime, sem querer

Embora os meus olhos sejam
Os mais pequenos do mundo,
O que importa é que eles vejam
O que os Homens são no fundo.

Julgam-me mui sabedor; e é tão grande o meu saber que desconheço o valor
das quadras que sei fazer.

Peço às altas competências
Perdão, porque mal sei ler,
P’ra aquelas deficiências
Que os meus versos possam ter.
 

António Aleixo 

Nota: ficou ainda muito por citar, pois é fantástica a quantidade de versos criados por este homem. Curiosamente, muitos deles foram ditos de improviso, em festas ou romarias, e anotados pelos fiéis seguidores deste autêntico mestre.

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